Dia desses, estava indo para a Paulista por volta das oito da manhã, pegando o metrô Bresser até o Consolação. Qualquer paulistano ou freqüentador do nosso metroplexo do coração sabe o que isso significa. Para aqueles que não sabem, isso significa seguir num vagão de metrô completamente abarrotado, descer numa estação central ainda mais abarrotada de gente, seguir até outra estação de integração, pegar, mais um vagão completamente superlotado e enfim chegar ao destino. Sério.
Ao chegar na Sé (a tal estação central), eu mancava por minha vida – tinha machucado o joelho fazia pouco tempo e mancar era o movimento mais rápido que eu conseguia fazer sem auxilia mecânico, como rodinhas. No curto espaço entre a porta de saída e as escadas, a estação vira um compacto de quinze segundos da operação Overlord: você não pode parar de avançar, não importando o quanto você esteja cansado ou machucado. Vacilar é morrer, pois a massa segue você por poucos centímetros e o atropela se você descuidar.
Felizmente, com as bênçãos de Montgomery e Churchill, cheguei até a escadaria. Nesse momento, não fazia diferença se eu estava mancando ou não: todos seguiam como numa grande marcha dos pingüins, passinho depois de passinho. Era como se, simultaneamente, todos os cadarços de todos os tênis de todas as pessoas tivessem sido amarradaos. E, enquanto subia, fiquei lembrando das cenas de “Metropolis”, de Fritz Lang: os trabalhadores anônimos, em ritmo cadenciado, entrando na fábrica. Alimento da máquina ou do tal sistema.
Adoro São Paulo e, ironicamente, ela me apavora muito. Acho que o fato dessa cidade reunir justamente o futuro utópico e pessimista junto com uma porrada de outras coisas é o que faz com que eu ache esse lugar incrível. E, cada vez mais, ela dá vida para muitos desses temores que os artistas do começo do século passado tanto alertavam em suas obras. E podem me chamar de alarmista maluco e outros adjetivos, mas isso me assusta muito. A cada dia, “1984” é deslocado mais um centímetro em direção à prateleira de “não-ficção”.








3 Comentários
2/10/2008 às 2:26
“(…)
Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal…
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou…
Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!…
(…)”
Sempre me lembro desta música quando reflito sobre esta cidade que eu tanto amo e odeio.
8/10/2008 às 22:45
Então podemos considerar toda sexta o dia D rsrs
19/12/2008 às 13:51
Pois é…
Não tenho tanta intimidade com a cidade assim… Apenas passei por ai umas 3 ou 4 vezes, mas foi o bastante para me lembrar o quanto é bom morar no interior… rsrsrsrs
Nada contra a cidade ou seus habitantes, mas esse estilo de vida paulista me sufoca! rsrsrs
Abraços!